quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Para falar de flores



Agora é primavera em Porto Alegre... Da minha janela vejo a vida que se renova. Nas praças as crianças colhem amoras e tudo é verde. Tudo é vida que chega em tons multicoloridos.

O interessante das plantas e flores é que elas não necessitam de um cuidado contínuo, pedem apenas água no nascer do dia e gotas no final da tarde... E de resto fica o mistério do florescer no ritmo ideal – no ciclo e tempo certo. E assim teremos amoras, quer dizer, as crianças terão amoras para colher do decorrer do tempo.

Ao contrário das flores, as crianças necessitam de muito mais, não basta apenas água em período disperso e nem tampouco amoras em determinadas estações. Há muito mais em jogo, mas será que todos sabem disso? Talvez não...  Por Deus! As crianças estão “largadas” em praças e não apenas para comer amoras!  Nas ruas, em casa em todo lugar vejo crianças que crescem em total abandono e descaso. O que pensamos? Será que ingenuamente achamos que a chuva irá propiciar sonhos e bosques imaginários a elas? Talvez culpemos o Estado e assim poderemos ensaiar o discurso “ Eu amava tanto meu filho que...”. Nada além de falácia!

Às vezes busco encontrar bons pais e mães e confesso que está cada vez mais difícil. Ainda encontramos mulheres que engravidam para “segurar marido” e homens que pensam que filhos são plantas, afinal não conversam, não dão atenção, educar é luxo e amor ficou no passado. É triste ver mulheres que abrem a boca para dizer “Sou Mãe!” Mas que na prática tratam filhos como arranjos artificiais, algo que é bonito de se ver, mas que não carece de cuidado algum. Já os homens com seus bonsais de estimação... Mas os filhos crescem... Ah se soubessem desse detalhe.

Quem os obrigou a tê-los? A única coisa que nasce sem nosso querer é o mato que teima em invadir a horta dos sonhos! Mas se eu desejar ter Tulipas no beiral, terei de comprar sementes ou adquirir uma muda – existe investimento. Como aceitar que ainda hoje se possa conceber crianças por “erro de percurso”? Há algo errado... Em algum lugar existe resposta para tal questionamento? Será culpa da primavera? Teria a água sua parcela de responsabilidade ou são as árvores que agem como afrodisíaco? Pouco importa... A verdade é que crianças não são vegetais e um dia os pais que hoje as negligenciam perceberão isso.

Agora é primavera em Porto Alegre... Da minha janela não posso ver muita coisa, mas escutar isso é possível e os tiros pude ouvir. E na praça onde as crianças comem as amoras um corpo jazia no chão. E assim um Sr de um nome que não sei, chorava pelo filho que ali morto estava, um pré-adolescente viciado em crack.. E na véspera do dia das crianças foi o que vi... Se ele foi um bom pai? Isso jamais saberei... Há coisas que permanecem como mistério. Tal como as amoras que crescem na Primavera, tal como o amor que nutre pais e filhos.



TEXTO: Rockson Costa Pessoa
IMAGEM: http://picasaweb.google.com/lh/photo/9K-9LArHgQxb3KRrXaowVA

20 comentários:

Teresa Cristina disse...

Ai, esse texto doeu meu coração. Hoje de manhã participei de um programa de rádio que o tema foi isso, as crianças "abandonadas", não mais aquelas das praças e viadutos, mas aquelas que vivem o abandono afetivo no lar. Nó na garganta com este texto. beijosss

Thaís Duarte disse...

Lindíssimo e verdadeiro texto. Realmente é revoltante a situação das crianças em nosso país e em todo mundo; o amor, aquele que é capaz de mudar e fortalecer as pessoas tem sumido do coração de tantos que se dizem "pais". Dá um aberto no coração de ver. A primavera por si só é misteriosa e triste para alguns.
Beijos!

"Mas não, mas não
O sonho é meu e eu sonho que
Deve ter alamedas verdes
A cidade dos meus amores
E, quem dera, os moradores
E o prefeito e os varredores
Fossem somente crianças." (Chico Buarque)

Luna Sanchez disse...

Oi, guri! =)

Criança é um assunto que me interessa muito, gosto tanto!

Ano passado estava em um parquinho com meus dois sobrinhos-afilhados e uma mãe, repreendendo o filho que deveria ter uns 6 ou 7 anos, disse : "Vou contar tudo para a tua professora, amanhã!"

oO

Fim de carreira, né? Inversão de papéis, caos, irresponsabilidade.

Eu quero ter filhos e quero ser mãe, e uma coisa não é sinônimo da outra : quero ocupar meu espaço de mãe, com todas as dores e alegrias que isso traz. Não penso em ser amiga dos meus filhos porque não será essa a minha função primordial...mas claro que se além de mãe e filho conseguirmos ser amigos, estaremos no lucro. ;)

Falei demais...aff!

Beijo, beijo.

ℓυηα

Lília disse...

Texto muito forte!

E o que mais me preocupa é que se não cuidamos de nossas crianças, preparamos um futuro deprimente.

O que me espanta também é que com tantas crianças largadas nesse país de meu Deus, o Brasil ainda mantém tanta burrocracia na adoção, daqueles que querem ser pais e mães.

Não sabemos mesmo, onde isso td vai parar!

Crônicas do Cotidiano disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Crônicas do Cotidiano disse...

Oi Teresa,

A realidade está machucando muito ultimamente... Mas a gente vai fazendo nossa parte!
Bjkss

Oi Thaís,

Concordo contigo guria! Temos de mudar tais primaveras!
Bjkss

Oi Tartaruguinha...

Tá tudo loucooo mesmo Luna! Papéis invertidos e pior... Papéis quem nem assumidos são! Quer dizer que queres ser mamãe... Só não pode ser uma Dona Norma hein!Rs
Bjkss

Oi Lília,

Tens toda razão... O mundo todo se preucupa com o fato da sustentabilidade do mundo (o que é muito importante), mas a frase: "Que mundo deixaremos para nossos filhos? ", não contempla a questão: Que filhos deixaremos para o mundo??
Bjkss

Eraldo Paulino disse...

Me identifico tanto com teus textos. é raro encontrar produções assim, longe das águas rasas, se é que me entende.

Se tem uma coisa que me choca profundamente é a moléstia de crianças. Filmes que envolvem crianças em situações aterradoras, como no caso do filme Olga pro exemplo, me torturam mais que o normal.

Testo maravilhoso, meu caro!

Abraços!

Ana SS disse...

É...são poucos que veem, de fato, a prima-vera.
Há quem sequer tem pais.....qto mais primas...
(humor negro o meu, não?)
:)

Crônicas do Cotidiano disse...

Olá amigo Paulino,

Bah... Valeu pelo "não águas rasas". Um abraço!

Oi Ana,

Totalmente NEGRO!!! Rs
Bjkss

Fernanda Barcellos disse...

Oii

Seja bem vindo ao meu blog. O "bah" já acusa que somos vizinhos...(hehe)
Lindo final de semana.

Beijos

Crônicas do Cotidiano disse...

Pois é Fê! Acabei me entregando!
Bjkss

Ela, Eu disse...

É nesse mundo mesmo que vivemos: em que pensamos estar em meio a um mar de rosas, quando na verdade o "sistema" apenas "ocultou" os espinhos.

Triste ver essa realidade com nossas crianças, elas deveriam ser nosso futuro, nossa esperança...

Beijinhos e desculpe a ausência =x

khmer student disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Crônicas do Cotidiano disse...

Olá Ela,Eu...

É verdade guria... A sociedade tem abandonado nossas crianças!
Ahh quanto a sua ausência...Sempre é momento de visitar os amigos!
Bjkss e bom vê-la novamente

Carol Morais disse...

Um teco triste. Primeiro montei toda uma imagem bonita e ideal em minha cabeça. Depois, pensei em como é injusto montar paisagens belas com tantas crianças por aí, sem terem conhecido ao menos o amor.

Fiquei então, triste.
E pensativa.
Que bom você proprocionar esse tipo de reflexão.
Um grande abraço, meu querido!

Vanessa Souza Moraes disse...

Que saudades dos anos que morei em Porto Alegre...

Crônicas do Cotidiano disse...

Olá Carol,

Agradeço pelo abraço aconchegante!
Bjkss

Oi Vanessa,

Ah... Você sabe o caminho da casa!
Bjkss

bruna disse...

Porto Alegre é linda na primavera - e lindo também o seu texto sobre ambas.
Beijos

Paula Nunes disse...

Nossa, passei aqui e adorei o seu cantinho.

Escreve com verdade. parabéns!

Te sigo.

Crônicas do Cotidiano disse...

Olá Bruna,

De fato é linda... E quanto ao texto, saiba que o prazer é meu em tê-la no meu espaço. Volte sempre!
Bjkss

Oi Paula,

Obrigado pelo elogio... E fique a vontade para visitar esse espaço!
Bjkss