segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

SOBRE HIPOCRISIA E AS CELAS DE NÓS MESMOS

De tão banal que se tornou ninguém parou para reparar nas tristes coincidências que culminaram com o assassinato de Ruas. Na verdade ninguém parou tampouco para socorrê-lo enquanto era covardemente espancado. Mas eu preciso tirar um tempo para te contar sobre essa história....

Do domingo de Natal dois jovens "de família" vinham de uma festa de família - crivo dos jornais. Dois jovens, que talvez, tivessem bebido demais - para esquecer os problemas. Jovens como nós! Brasileiros como cada um de nós. Resolveram urinar em um jardim. Na verdade foram mijar em um lugar isolado. Quem nominou tal espaço de jardim? É espaço público e eu pago impostos -pode ter sido a crença expressa naqueles cérebros alcoolizados. Não sabiam que aquele lugar público era um lar - um inglório espaço/lugar de existência de um morador de rua. O que é um morador de rua?! Escória; escória - seres indignos que poluem nossa sociedade. Com um agravante: era um travesti.

Preciso recapitular mais uma vez: dois jovens de família voltavam de um natal em família. Penso que no metrô falavam sobre roupas de marca, sobre as "minas"; por que não sobre sonhos e corrupção? Quem não garante que não haviam discutido sobre os rumos da nação? Só podemos especular. Então numa noite de Natal eles são ADVERTIDOS por um travesti que é morador de rua... Sim! Um homossexual que carrega duas chagas sociais: ser pobre e homossexual. Somado a sua condição social, ousou determinar um território sem paredes, sem logradoros sob seu CPF. O repugnante travesti errou em desejar ter um lar tão atípico como ele. Quem sabe imaginou que o espírito natalino transbordaria do "coração" daqueles jovens de família. Por quê?? Porque não é muito considerar que ter uma família para ceiar no Natal nos toque ao ponto de nos sentirmos abençoados, coisa que Brasil não tinha. Sim... O travesti chama-se Brasil. Infelizmente a história nos conta que ódio, tão somente ódio transbordou naquela fatal noite de Natal. Brasil foi perseguido.... Não só ele mas como outro travesti que buscou socorrer Brasil. Agora eram dois alvos. E aqueles jovens eram a combinação perigosa: álcool, preconceito e intolerância. Eles queriam causar dor. Mais adiante um tal Ruas nem imaginava que horas depois morreria. Era mais um sem rosto. Era mais um comum. " o tiozinho da bala" - na máxima: é bem um acomodado que não quis estudar para crescer e ser alguém. Ruas era a personificação da bondade brasileira... Ele é a cara que tentamos ignorar! Ajudava a alimentar os moradores de rua - como Brasil. Eram seus amigos.

Talvez Ruas não tivesse tempo e quem sabe nem tivesse um smartfone para compartilhar sua preocupação sobre o Brasil. Talvez recebe facilmente um rótulo de alienado por não discutir aqui no fb sobre os problemas estruturais do Brasil... Talvez não tivesse um celular bacana por ter de separar umas moedas para alimentar sua família e sua outra família, onde Brasil poderia ser a jardineira... Ruas taça muito ocupado em ser cidadão... Não era digno! Acho que nem tivesse a competência para elaborar um texto com SENSO CRÍTICO.

Gosto de pensar que ele estivesse contando as moedas para elaborar uma ceia e então está preso a consequência de ter desejado ajudar um amigo. Apenas um amigo... Não é travesti, não é morador de rua, tampouco um viado ou uma bichinha qualquer! Ruas ajudava um amigo... O mesmo amigo que recebera uma humilde quentinha de Natal. Não demorou para estar no chão! Dois jovens de família movidos por um ódio pode facilmente derrubar um Senhor com coração nobre. Mas vamos parar de falar em coração, pois a cabeça foi o alvo...

E no dia que o país cristão comemora o Nascimento de Cristo, Ruas assumia um rito de Páscoa - morria por dois inglórios. Um Cristo do metrô... Talvez tenha perdido a consciência antes mesmo de entender porque apanhava. Enquanto apanhava ninguém ousou intervir... Ninguém teve coragem para acudir Ruas. Uma leitura rápida diz que é o medo da população, mas não.... Ruas morreu porque era um qualquer! Que falta faz no mundo um "tiozinho das balas"? Se fosse ao menos um bebê ou um cachorro abandonado.... Velho, pobre e preto tem aos montes.

Anos atrás jovens ricos queimaram um índio em Brasília e no ano passado um outro índio morreu nas mãos de jovens como nós... Jovens de família. Eles foram presos e revolta muito. Nos toca sabe e o senso de justiça nos pede que sejamos enérgicos. Daí você se depara com um presídio, o lugar onde mandamos as pessoas ruins, tendo uma rebelião que viraria assunto mundial pela carnificina. Assassinato com requintes de crueldade... FDN X PCC, diz o jornal. No fb uma guerra é travada (porque nós temos smartfones) e uns comemoram e até consideram que seja providência divina e outros solidarizam-se com a dor da famílias.

Não eram anjos - disse o sábio Governador, mas estavam lá pela promessa de recomeço. E aqui as histórias se cruzam: a sua história, a minha história, a de Ruas e seus assassinos, bem como a dos vencedores e perdoredores da tragédia nos presídios amazonenses. Há um ponto de vista! Os assassinos de Ruas acreditavam que estavam contribuindo para erradicar a sujeira das ruas de São Paulo, sujeitos encarcerados como cães atacaram como ataca qualquer animal que marca um território. Nós lindos, civilizados e cultos matamos por tão pouco nas redes sociais...

Quantos decaptam com a idéia de bem X mal? Quantos não travam infrutíferas batalhas por conta de uma utópica guerra santa para impor visões ideológicas. A verdade é que somos todos hipócritas! Estamos na segurança de nossos lares e não vivenciamos o medo de policiais que são coagidos por um desejo de mundo melhor.... Desconhecemos a desumanidade dos presídios e tampouco podemos dimensionar o sofrimento daqueles que não tem proteção. Estamos falando de vidas e se o caminho é a pena de morte, que ela seja avaliada pela democracia. Visões como estas matam Ruas anônimos. Visões rasas como esta permitiram que um travesti fosse perseguido em Sampa. E se é lei que queremos é advogamos pela lógica: matou tem que morrer, sempre criaremos vítimas e assassinos.

Que as leis sejam mais duras mas que também sejam eficazes, mas enquanto na Europa desativam presídios, nós temos que pensar em como aumentar o número de terras para plantar soja e construir cadeias. Criminoso bom é aquele que responde por seus atos e não tão somente é esquartejado aos olhos cúmplices do Estado. E fica a mensagem de Ruas... Menos likes e mais humanidade.


TEXTO: ROCKSON COSTA PESSOA
IMAGEM: Notícias UOL.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

AS PAUSAS QUE A VIDA DÁ



De um lado da sala alguns choram seus mortos. São corpos jovens, velhos… Há crianças também! São invólucros de sonhos dissipados – são cascas sem recheio algum; não há mistério. Do outro lado da rua, são os olhos divertidos que fitam o novo ser – é um bebê que inunda tudo com sua ingenuidade! Representam sonhos e esperanças “… Como não se comover com eles e como não sensibilizar-se com os que bruscamente são tomados de nós. Independentemente se encerra-se ou inicia-se uma vida, é preciso estar atento, melhor, estar sensível para as pausas que a vida dá. Cada morte e cada nascimento são marcos de um tempo entrelaçado – são as histórias que passam a existir em nós mesmos. Nunca morrem. 

O problema é que nada mais vemos… Nada mais enxergamos! E não se exige tanto assim. É o sorriso tímido de uma senhora que adentra a uma loja e que fita você – por que não sorrir de volta? É um ex aluno que lembra de você em determinado centro da cidade – para que fingir não reconhecê-lo? Mas a sensibilidade também nos faz enxergar o ódio, a inveja de tantos e tantos. Será que não percebem que é tão nítido? São sacos vazios – logo; logo serão levados pelo vento de suas próprias iras! Há muito ódio no mundo, isso é indiscutível! Há rancor gratuito em tantos e tantos – se exaltam e demonstra a feiura que os torna o que são.


Eu particularmente aprendi a me afastar de “ligeiros agressores” - aprendi a respeitá-los e a compreender suas feridas… Mas não se pode domar monstros! Não se pode tranquilizar demônios alheios. É papel de cada um o “domar” de suas iras, o enfrentar de seus demônios e o franco aperfeiçoamento de suas singularidades… Cada de um de nós tem esse dever! É comprometimento moral não? 


Seja em sala de aula, seja na cantina ou no cinema com um amigo… Seja onde estiver e no tempo que vier a ser, sinta a pausa da vida! Chore, ria, ame… Respeite! Se cale, por que não? Escute e veja o quão frágil você é. A vida nunca foi segurança e a morte nunca foi um fim! Há um gigantesco e elaborado ciclo… Estamos presos uns aos outros! Iluminamos e dividindo o mesmo céu e tal qual astros, há um tempo fugaz.


Os olhos, sempre são os olhos… Ou estão cerrados ou nos fitam de modo incompreensível! São como ponteiros que mensuram nossa existência. Os mantenha sempre bem abertos… Preserve-os. Fica o convite: menos ira e mais compreensão – menos arrogância e mais consciência! Menos inveja e mais apreciação. Por que um dia retomaremos a pausa que coincidiu com nossa própria existência, mas uma pausa de fim.


segunda-feira, 2 de novembro de 2015

A VIDA É RECOMEÇO


Os pés sempre chegam primeiro. Estudam a maciez da areia e sua receptibilidade... Os pés voltam a lembrar desses grãos iniciais. Esta em casa! Foi aqui que tudo começou - os olhos se deparam com o oceano e outra vez tudo volta em coloridas e fortes lembranças. Antes de ser oceano nada era... Não havia ondas quebrando e tampouco sonhos sentados à margem de tudo. No início as águas eram como filetes dóceis e despretensiosos, que seguiam regidos pela força gravitacional do instante! Água e areia era um misto de reciprocidade até então não compreendida. Da água tímida um vasto mar se abriu... Agora são as mãos que tomam remos possibilitando o navegar em busca de si mesmo.

A vida é um eterno recomeço... Por ela navegamos e somos levados até onde os braços podem guiar! Até onde os olhos almejam alcance, para que pernas concretizem o anseio de tocar a terra mais uma vez... Retomo meu caminho nestas águas iniciais, voltar as vezes é o início da jornada. O recomeço,.talvez seja o determinar de um novo ciclo dentro de um perpétuo infinito de existências. E cada ciclo consiste em possibilidades. Tudo é possível até mesmo quando parece inviável.

Deixo a água lamber meus pés, e dessa maciez da areia com a gélida natureza d´agua é que remonto a lógica que nem sempre fora clara: não há scripts! Não há ensaios e o que existe é a perplexidade... A espantosa exequibilidade de sermos tudo aquilo que almejamos ou retalho das escolhas que não tivemos coragem de tomar.  No fim, penso que há dentro da gente um mar interno - um mar da gente; e tal mar nos impele aos recomeços; porque na vida os pés, mesmo que cansados, sempre se aventuram em buscar pelo mar pela simples necessidade da maciez da outrora areia.

TEXTO: Rockson Costa Pessoa
IMAGEM: Blog a Menina que virou mulher

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Fogo Fátuo?


E nos últimos 02 meses temos visto o modismo de atear fogo em pessoas, a prática criminosa que se iniciou contra dois profissionais odontólogos, infelizmente levando ao óbito dos mesmos, já começa a se espalhar sem distinção de ramo de atuação, pois a terceira vítima (esperamos que seja a última) é um profissional da área financeira, tudo isso acontecendo em regiões de São Paulo, mas vale lembrar que o fogo tende a se espalhar rapidamente.

Certo alguém já havia dito que as coisas tendem a se repetir... E o episódio de atear fogo com o intuito de usurpar algo de outrem já é antigo! Uma das histórias mais significativas dão conta da lenda de Anhanguera - "diabo velho", apelido dado pelo indígenas da região do rio Araguaia para Bartolomeu Bueno da Silva. No referido episódio, ele ameaçou os indígenas dessa região, afirmando que atearia fogo em seu rio, caso não revelassem o logo onde havia ouro que eles utilizavam, os nativos não acreditaram, então Bartolomeu pegou um recipiente e colocou água ardente, ateando fogo para o espanto e admiração dos nativos que logo informaram o local onde havia ouro.

Seja na época das cruzadas ou na atualidade, o uso da violência para roubar o que não lhe pertence é algo marcante... Ironicamente o "diabo velho" havia saído de São Paulo para conquistar os demais povos do território brasileiro, na triste e sangrenta época das bandeiras, hoje é a mesma São Paulo que sofre com a assustadora metodologia de furtar as pessoas com o emprego de piromania, valendo destacar ainda o episódio dos corintianos e o sinalizador na Bolívia, a coisa esquenta mesmo quando o assunto é Brasil.

Enquanto isso, o que se pode fazer? A questão circula naquilo que denominamos de fogo fátuo, ou seja, uma inflamação espontânea que quando aplicada ao contexto social expressa que a impunidade gera consequências desastrosas e trágicas como esta... E longe de nós utilizarmos desculpas folclóricas para explicar tal fenômeno, os brasileiros precisam mais do que contos pueris e propagandas eleitoreiras que buscam afirmar que a segurança está bem melhor!

E se falamos de fogo, lembramos que o oxigênio só o alimenta e no país onde o sensacionalismo é a alma do negócio, vemos as notícias ventilarem mais e mais esse comportamento e se atitudes duras não forem tomadas viveremos novas ondas de calor no Brasil e isso vai além de ônibus sendo queimadas, como vimos em Santa Catarina, Rio de Janeiro e São Paulo, mas sim a queima de pessoas que são apenas vítimas de uma inércia social!

A copa do mundo ou dos voluntários?




No último sábado deu-se início a copa das confederações, uma prévia da tão comentada e esperada copa do mundo! Valendo destacar que o estádio de Brasília é um dos mais superfaturados do Brasil, como já havia salientado o jornalista Luiz Carlos Prates (VER LINK) http://www.youtube.com/watch?v=PQtO0ukwbFo, não bastasse isso, há rumores de uma possível privatização dos estádios de Manaus e Rio de Janeiro.

Eu tenho visto vários movimentos na internet que criticam a idéia de copa a ponto de afirmarem que ela para nada serve, eu discordo em parte disso. A idéia de uma copa é boa... Muitos recursos e financiamentos privados são destinados para a construção do “circo da copa”, o problema é a corrupção e não a copa! As verbas foram destinadas, se elas chegaram ou foram desviadas é outra questão. 

O entretenimento a custas dos outros é algo antigo na história da humanidade, os romanos sabiam bem como fazê-lo ao permitir ao povo o duelo de gladiadores, que muitas vezes terminava com a morte de um dos oponentes, o que ressuscitamos com os UFCs que não estão muito distantes disso. A política do “pão e circo” é costumeira nossa, onde vemos com tristeza a destinação de pesadas verbas para “festas” que surgem como refrigério ao povo, mas não vamos entrar nesse percurso turbulento.

O Brasil todo vivencia as dores de uma inflamação que parece não estar satisfeita com sua devastação, um dia a baderna pela falta do “maná político”, a bolsa família, de outro lado a presidente Dilma com sua postura reacionária e inflexível destruindo com ferocidade qualquer possibilidade de reavaliação de suas medidas um tanto discutíveis. Em São Paulo a violência por conta do transporte público e no Mato Grosso do Sul, a luta entre índios e pecuaristas pelo pedaço de chão... O que isso tem haver com a copa? Tudo... Temos investido nessa copa sem escolha alguma, e pagamos mais ainda para cobrir o rombo do roubo de nossos governantes, mas ninguém sabe disso – a escola do Lula faz sucesso e no fim nada se sabe. E no final é como “pisar em tomates” (VER LINK) http://www.youtube.com/watch?v=6NRWbUJh3kE, e vemos o aumento de itens básicos como a cesta básica, o transporte público e demais impostos.

Mais de tudo isso, sabe o que mais me revoltou? É ver os tais voluntários da copa... Pessoas comuns que tem a OPORTUNIDADE de ajudar seu país! Se iniciamos o texto destacando a existência de verbas volumosas, como se pode aceitar que pessoas trabalhem na copa de modo gratuito? Isso é uma vergonha! Muitas dessas pessoas são qualificadas, pois ajudarão no atendimento de estrangeiros, ou seja, falam outros idiomas! O Brasil na sua malandragem usa de artifícios para barganhar em troca do tal sonho, eu chamo de roubo! De desrespeito ao direito de um trabalhador, mas o Brasil diz ser o voluntariado.

Já perceberam o quanto somos usados como gado? Como elementos de manobras políticas, ideológicas e religiosas também... Quantos e quantos movimentos religiosos se tornaram em espúrios palanques religiosos? Quantas e quantas mobilizações IDEOLÓGICAS surgem apenas para beneficiar uma pequena parcela da sociedade? Viramos um gado consumista, que se vê preso a necessidade de consumir sem consciência e movemos a roda invisível da normalidade de tudo.

A copa do mundo é boa... Muitos poderão conhecer o Brasil e voltar em outra oportunidade, talvez não estejamos preparados para usufruir desses grandes eventos. Isso me faz recordar de uma notícia que eu li em certa revista uma vez, um texto escrito pelo economista James Shikwati, do Quénia, que tinha por título: Por favor, parem de ajudar a África, por conta de muitos conflitos existirem no continente africano em virtude da luta pela posse dos recursos vultosos que lá chegavam... Por favor, parem de hollywoodiar o Brasil! Por que ainda precisamos resolver problemas básicos para então sonharmos em crescer de fato.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Sobre o suposto assassinato de Narciso



E nos conta a mitologia grega sobre tal Narciso, filho de um deus e uma ninfa... Vocês já conhecem a história! Quero compartilhar minha visão sobre o mito de Narciso. Tudo bem sabemos que o cara era "boa pinta", o chuchu das ninfetes, mas existe algo a mais nessa história. A primeira coisa que não compreendo é como um ser narcisista pode vir a cometer suicídio, assim de modo tão ingênuo... Então vamos aos fatos:

Narciso era bonitão e não se interessou por nenhuma das belas mulheres que eram "loucas" por ele. Certa vez um amigo meu me disse que a história de Narciso era uma estória gay! Pode até ser, mas, e se ele tivesse sido assassinato? A mitologia de Narciso, ao meu humilde ver, retrata nossa atual dificuldade em aceitar diferenças. Nem digo aceitar o novo, porque de novo mesmo quase não temos nada. Não cabe dizer se Narciso era hetero ou tinha orientação homossexual, o que vale é que ele não se interessava pelas mulheres de sua cidade por considerá-las feias para ele! E como isso tem se repetido...

Certo dia, Narciso foi para o lago se refrescar e enquanto se admirava - sei lá, poderia estar medindo o seu tríceps ou bíceps e do nada é surpreendido por uma ninfa desgosta e ativista! Pela falta de papiloscopista e pela inexistência do CSI o Narciso cai natimorto nas águas calmas do lago... Rapidamente seu pulmão se enche d água e ele morre afogado... Ah, quanto a flor, foi apenas um passarinho que desapercebido evacuou no cenário do homicídio!  É isso mesmo, Narciso foi assassinato, é o que penso!

Na atualidade vivemos uma espécie de apartheid no Brasil, onde religiosos e membros do movimento LGBT travam uma luta que está longe do fim... E não bastasse isso, vemos o Brasil discutindo a redução ou não da maioridade penal, penso que o “tal diferente” continua a dividir opiniões, pior que isso, separa as próprias pessoas. Seria interessante se pudéssemos largar o passionalismo e até mesmo o ideologismo e buscar encontrar as várias dimensões dos problemas sociais... Mas nos comportamos como as ninfas que não sabem receber um não! Dizem que o Narciso se achava demais, mas e a Ninfa que o assassinou? Não seria ela mais narcisista?

Hoje vi na internet que uma pessoa, desafortunada, passou um trote para a polícia militar e corpo de bombeiros de São, o que fez que até helicópteros fossem utilizados por conta de um suposto acidente de grandes proporções... Se for encontrado, espero que seja, poderá pegar até 02 anos de cadeia! No interior do mesmo estado queimaram um dentista por R$ 30,00 - o menor já assumiu tudo e até deu o isqueiro! Enquanto isso, para alguns desinformados os religiosos se tornaram todos homofóbicos e para a grande massa brasileira - a manchete diz: A copa do mundo é nossa!

A vida se tornou banal demais... Que o diga a família do Alvorada, exterminada por conta de uma informação, pasmem da própria vítima sobre uns tais R$ 10 mil reais - nesse caso não tem menor, que bom, senão assumiria tudo e ainda diria que trabalhava como ajudante de açougueiro! O que se repete da história é isso, nossa capacidade de ignorar fatos e de dar um ar romântico para tudo! Talvez seja a hora de ignorarmos os mocinhos e bandidos da história ou de sensacionalizar as tragédias... Que tal um pouco de respeito? Enquanto não aprendermos a respeitar as diferenças isso é em tudo: etnia,cultura, orientação sexual e dogmas religiosos, vamos matando os Narcisos por aí, mas no fim a gente corrige mandando flores em forma de desculpas... E se hoje jovens matam, cabe um olhar mais sério sim... Reduzir a maioridade? Não sei se estaríamos preparados, mas no que diz respeito a uma pena mais dura sou favorável sim (e muitos vão me criticar por isso, mas é meu ponto de vista), por que enquanto um mata por nada saber, belos narcisos se vão e virão lendas românticas... Foram sonhos ceifados que fingimos não ver, por conta do egoísmo tão nosso... Pobres Narcisos, as flores que irão gerar, infelizmente são apenas coroas de um sepultamento.

Rockson Pessoa

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Como nascem os sonhos




E então após um breve tempo de escuridão, a saber, um período inferior a milissegundos, um lampejo ilumina uma grande parte do encéfalo... Após uma série de impulsos nervosos de ambos os hemisférios cerebrais e de suas profundezas teciduais – surgem sinapses, após a ligeira e dinâmica troca de neurotransmissores. Com a excitabilidade de estruturas ventrais e da democrática atuação de grandes circuitarias, os sonhos que surgem no encéfalo representam que o ato de sonhar, por exemplo, se inicia pela própria expressão do novo.
Os conteúdos que surgem por conta da excitabilidade do tálamo e ativação frenética de estruturas límbicas, permitem ao córtex frontal uma sensação de realidade paralela, a essa altura não é mais possível diferenciar o que é real ou imaginário... A partir da interconexão entre distintos córtices cerebrais, sendo esta fruto da perfeita atuação de bilhões de axônios mielinizados, temos corredores que permitem a ativação de diversas zonas de gatilho... Podemos assim, ativar memórias emocionais, ouvir músicas que contam um pouco de nossa leitura do mundo, e ainda nos é possível ver... E nos sonhos criamos os cenários a partir de ilustrações, filmes, revistas – tudo é tão perfeito, deve ser por isso é chamado de sonho.
E se podemos sonhar em média 20 vezes por noite, observamos a eficiência do processamento de grandes estruturas... O encéfalo, a partir dos trilhões de sensores espalhados pelo organismo (internamente e externamente), permite compor trilhas cinematográficas, dignas de Hollywood, a partir de uma leitura perfeita e exata da realidade. Quantos e quantos rostos que jamais fitamos ou vimos foram criados? Tudo para dar essa faceta realística aos nossos sonhos. É mais que mágico! Temos 20 sonhos, que se expressam pelos personagens, cenários e enredos. Nós somos criativos de fato!
Quando sonhamos, o fazemos pela simples necessidade de aprender sobre o mundo... Dormimos para não morrermos e mais que isso, dormimos e sonhamos para mudar o nosso contexto de modo persistente. Ao dormirmos consolidamos memórias, emagrecemos, envelhecemos e tantas e tantas coisas que são únicas... Sonhar é preciso, como dizia a letra de algum pensador – ele deve ter dormido bem no dia anterior para escrever algo tão verdadeiro.
Para mim, o mais prodigioso de tudo – diria até indescritível, não se resume ao fato do elaboradíssimo processo comunicacional do encéfalo, tampouco pela habilidade de criarmos cenários inimagináveis. Para mim o mais importante do sonho é quando aquilo que ressurgiu das profundezas de um encéfalo se repercute na mente ou mentes de outros... O que existe de mais elaborado do que isso, a capacidade de um encéfalo ler outro encéfalo! E por conta dessa teoria da mente que elaboramos no nosso tenro desenvolvimento, vamos expressando a mágica que é a vida, ou seja, a capacidade de influenciarmos encéfalos pela fugaz necessidade de nos iluminarmos a cada noite!

Rockson Costa Pessoa

quinta-feira, 25 de abril de 2013

O centro de tudo


Ao passo do que vejo certas coisas, vou tentando compreender a lógica... E de quase tudo visto eu percebo ser ilógico! Perdemos a noção do ridículo e a partir de uma idéia desviada de direitos ficamos reféns do desrespeito e da falta de educação. Reinventamos o caos em nome das singularidades e teorizamos atitudes em prol de um umbigo mesquinho.
Recordo-me do início da docência e de quanto me senti privilegiado em estar no mesmo ambiente de grandes mestres, muitos deles antigos professores! Quantas e quantas vezes me senti encantado em vê-los trocando idéias e quando discutiam com tal sabedoria, era perceptível a elegância do discordar sem ofender! Homens e mulheres com uma caminhada acadêmica e acima de tudo pensadores e problematizadores da realidade... Ao relembrar isso me causa espanto certas atitudes de alunos diante de seus professores, o desrespeito e acima de tudo a imprudência! Tais alunos são para mim desvirtuados, "cegos sociais" e acima de tudo iludidos por acharem que tal comportamento os servirá de proteção futura... E vale lembrar para tais "doutores prematuros" que essa segurança por conta de um livro, não se sustenta ao passo do tempo, afinal o conhecimento é fluidez jamais fortaleza. De onde tiraram a infeliz idéia que o professor é o centro do conhecimento? Por que teimam em nos considerar como Atlas? E assim vamos carregando o aluno e o conhecimento nas costas... Mas é assim mesmo, o cupim social já corroeu muitos de nós!
Existem muitas querelas que podem e devem ser consideradas e em todas observamos o mesmo equívoco de centralidade... Das relações amorosas não estamos longe e assim vamos degladiando com o parceiro ou parceira por conta do egoísmo que teima em imperar! Não queremos ceder e tampouco temos piedade dos perdedores - machucamos e punimos por amar errado! Há quem mate por tal "amor deformado", e no centro da confusão a mesma ausência de tato com o outro. Na vida pessoal, nos aspectos profissionais e até mesmo no calor das relações familiares vemos com tristeza a repetição de tais centralidades... Acredito que é hora de avaliarmos o que fato somos, penso que assim teremos a compreensão de que nosso valor se mede pelos atos por nós desempenhados e pelo respeito que procurarmos ter pelo outro, sem avaliar seu título de doutorado ou se é um tão necessário auxiliar de serviços gerais de uma instituição. Esquecemos-nos de ver o outro que reside antes mesmo de seu papel social ou da função que exerce.
De tudo que penso e das críticas que teço a mim mesmo, vejo que devemos trazer ao centro aquilo que passamos a desconsiderar... O trivial "bom dia" e o tão necessário abraço! Que possamos reaquecer as relações e esquecer das posturas ditatoriais que as vezes passamos a assumir... Talvez quando as coisas voltarem ao seu lugar correto, o mundo possa ser menos selvagem e assim poderemos viver sem medo de afrontas ridículas e comparações espúrias que só revelam o animal que teimamos em reificar em vida.


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Tragédias, meteoros e Janes Jopling



Ontem estava em um lanche perto de casa bebendo um refrigerante e assistia na tv sobre o meteoro que atingiu a Rússia (coisa de louco) no bloco seguinte falaram sobre Janes Jopling e possíveis herdeiras de seu reinado musical feminino. Para não me estender tanto - o comentarista falou mal de todas as cantoras da atualidade (Mariah Carey, Beyoncé e outras mais) e fez menção honrosa a Amy Winehouse.

Nada tenho contra Janes Jopling, tampouco contra Amy Winehouse, mas tenho muito a favor de lendas como Paul MCcartney e por que não citar os brasileiríssimos Chico Buarque e Paulinho da viola? A questão é que eles estão vivos, logo poucos escutam as músicas deles. Mas se eles morrerem, tornar-se-ão os "maiores cantores de todos os tempos" - obra boa é obra póstuma!

No Brasil ainda é visível o luto pela tragédia em Santa Maria e o Sul então, ainda chora suas perdas... Enquanto na Rússia o tema é o visitante ilustre e impactante do espaço e na avaliação do comentarista, uma boa diva é aquela que surge de maneira extraordinária e nos deixa de maneira impactante (lê-se morrer por overdose), ou de modo que nos choque como um meteoro.

A tragédia no Sul jamais aconteceria se medidas simples, como o emprego de segurança, fossem seguidas... Mas nós humanos gostamos do "surreal" e acreditamos que o raio, ou melhor, o meteoro só cairá lá na Rússia mesmo! Da mesma maneira que me perturbam essas avaliações sobre artistas, parece que o cara só é gênio se morrer precocemente... O que há de errado com os cantores que se mantém e aprimoram sua melodia a cada dia? O problema é que gostamos desse passionalismo, desse quase morrer sem querer concretizá-lo. E assim vamos elegendo como referências as coisas doloridas e saudamos a inconsequência de muitas para negligenciar a beleza que se esconde debaixo dos nossos olhos.

Neste momento, por exemplo, Santa Catarina se vê refém de uma minoria criminosa que se organizou como vimos recentemente em São Paulo e que esperamos jamais ver em Manaus... Mas disso ninguém comenta - é banal! Porque o que vale é o saber de meteoros que jogam para longe nossa onipotência enquanto homens... E não cabe questionar o fundo musical para tal observação, o que vale é perceber até que ponto é seguro andar para sermos de fato verdadeiros e não apenas meteoros que surgem e desaparecem de modo repentino.

TEXTO: Rockson Costa Pessoa

domingo, 14 de outubro de 2012

Homens indigestos




O grande dramaturgo grego, Sófocles, dentro seus muitos escritos, nos relata a tragédia de Édipo. Nessa história já tão contada, principalmente nos cursos de psicologia, filosofia e sociologia; podemos extrair ricos significados, mas se existe algo que me chama a atenção nesse relato, é a figura da Esfinge.
A Esfinge representa um ser mitológico, na verdade, um monstro que tem por costume devorar homens. Ela sempre se apresenta como inquisidora, e faz uso de sua máxima: Decifra-me ou te devoro!
A história é antiga... Mas, de certo modo, ainda encontramos esfinges em demasia. Os homens se tornaram preguiçosos no pensar. Por tantas e tantas vezes tentamos incutir na mente dos alunos a postura reflexiva, buscamos instrumentalizá-los com a prudência do ouvir e analisar, mas existe uma resistência traiçoeira. Pensar e confabular não nos apetece? Penso que caminhamos fatigados em uma regularidade existencial que nos deixa resignados. E em que isso reflete? Demonstra que perdemos o dom de questionar. Passamos a refutar em vez de ponderar. Abusamos da afronta como sendo uma forma lastimosa de buscar respostas... Não questionamos! Apenas blindamos nossas incongruências, na perspectiva de abalizarmos novas formas primitivas de existir, sentir e considerar.
Somos devorados! Na forma constante e negligente, de certo que perdemos a noção da crítica e mergulhamos em um universo egoísta raso – vala comum. Nada sabemos e tampouco buscamos desvelar na realidade. De tal modo, que é comum encontramos muitos profissionais da saúde que esquecem-se de perguntar ou negam até mesmo o tocar... Fugimos do questionamento e escondemos nossas falhas por detrás de instrumentos modernos, de falas complicadas. Evitamos fitar os olhos, Por quê? Porque são os pedaços indigestos que de nós sobram. São os retalhos que nos constituem que expressam nossa deficiência em filtrar o real.
A nossa missão é essa, não a resolução final que suscitará no extermínio dos problemas, as esfinges não morrem, pois são os monstros que nos mobilizam e acabam por engendrar as diminutas e perpétuas mudanças. É nossa função descortinar os fenômenos, atribuir os reais valores aos signos que preenchem nosso campo de atuação.
Desejo que tenhamos a humildade para compreendermos que as falhas nos impelem ao crescimento. Que jamais tenhamos medo de fitar o desconhecido que se apresenta no agora. Pois ao nos depararmos com o imperativo de decifrar, nem sempre poderemos responder, mas a grandeza se faz nas tentativas, não nas resignações.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Em tempos de política



Hoje passei por uma avenida em minha cidade e me confrontei com um político que acenava para todos e todas e até para mim acenou. Não retribui, não por ausência de educação, tampouco por desgosto partidário, apenas não compreendi o porquê de tal figura em dado lugar. Mas acredito que eu esteja ignorando o fenômeno político, que permite a proliferação de candidatos, como se fossem salvadores oportunistas do cidadão.

Se existe algo que não pode ser negado, é o fato de tal período propiciar muitas mudanças, que de tão diversas, promovem até mesmo conversões milagrosas, onde agnósticos se dizem tocados por Deus e emocionam fiéis ingênuos, que nada mais são que peças de um grande trampolim eleitoral. E ainda sobre tal situação, não sei a que deve minha indignação, se ao líder religioso que uso suas ovelhas como manobra eleitoral, ou do político que se promove por conta de valores sinceros, mas que rapidamente são alterados por conta de promessas messiânicas.

Em minha capital percebemos um pleito que compreende candidatos ruins e menos piores, figurinhas repetidas que surgem como uma comprovação da não renovação política, é claro que surgem novos personagens, mas são sujeitos de uma apatia social gigantesca, sujeitos anônimos que surgem apenas como distração do período eleitoral. Vale destacar ainda, os políticos que já governaram e são esses que mais me indignam, pois possuem discursos “curativos”, mas esquecem de que muitas das mazelas hoje criticadas foram iniciadas ou agravadas em sua gestão.

Quando me debruço sobre a política brasileira e tenta encontrar mudanças, nada vejo. São as mesmas CPIs, as mesmas anulações de processo e no fim corremos o risco de sermos punidos por nossa avaliação preconceituosa desses quase anjos da política, que possuem recursos infinitos, de tal modo que confundem a cabeça do mais culto cidadão, pois no fim, sempre há uma explicação, consegue contornar filmagens evidentes, conseguem explicar desvio de verbas, são mágicos de fato.

Meu singelo conselho, se é que tenho o direito de dá-lo, é de que quando um candidato for a sua igreja peça ao mesmo que opere um milagre... Peça um sinal de que ele é mesmo o tal enviado de Deus para os conflitos modernos. E não precisa ser algo grandioso como abrir o mar, tampouco deverá morrer por você, mas que ele se preste a fazer o melhor necessário. Que formule novas políticas para a saúde, que cuide da segurança e que tenha um governo transparente. Estou cansado dessa bagunça chamada Brasil e mais descontente com os políticos do meu Estado e município, mas infelizmente há a perpetuação da pobreza e da ignorância, e isso permite que uns muitos, se contentem com ranchos sazonais e promessas espalhafatosas...

Cada sujeito tem uma história, a tal ficha limpa pode não ter emplacado na política pública, mas quem precisa dela quando faz uso de memória e bom senso? Que saibamos recordar datas, eventos e fatos que expressem a verdadeira face de nossos candidatos. Porque esperar milagres e acreditar em conversões oportunistas são a prova que tendemos a negligenciar nossa própria dignidade e cidadania.


TEXTO: ROCKSON COSTA PESSOA

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Essencialidades



Hoje recebi um carinho afetuoso, de mais sincero, ainda não experimentei de forma concreta outro de extrema pureza... O episódio em questão, se deu com meu sobrinho, Cauã, 1ano e 6 meses e muita coisa para me ensinar. Pela tarde de hoje, quando eu descansava em meio à corrida que tem sido a minha vida ele veio até mim e de modo singelo reclinou a cabeça no meio peito, algo breve e diminuto, mas tão sincero que não se pode explicar o sentimento... E como isso é raro hoje em dia! É tão raro ter essa integridade, afinal assumimos tantos papéis, funções e dogmas sociais que às vezes dormimos e acordamos com fantasias que não representam nossa realidade como sujeitos e isso machuca e entristece.

É um imperativo da nossa sociedade a anulação do sentimento, e de certo modo, existem orientações de como falar, sorrir, abraçar. Estamos presos na retina do outro, e somos vítimas dos preconceitos e dos medos límbicos daqueles que nos vigiam, mesmo por trás de belos sorrisos. Vivemos uma ditadura da apatia, do fazer em prol de uma felicidade que é utópica, pois a nossa alegria representa um ideal ainda controverso, pois o consenso é seguir padrões já legitimados por olhares e desejos do outro, não há um espaço para o Eu.

O que é essencial? Para Antoine de Saint-Exupéry, em seu livro: O pequeno Príncipe, o essencial seria algo invisível aos olhos, talvez porque os olhos se sobrepõem aos demais sentidos, ou quem sabe, pela dura realidade de que a vida para muitos de nós já se banalizou. A beleza que compõe nossos universos encontra-se bem ajustada a calendários e datas especiais. Somos regidos pelo tempo que nós mesmos oprimimos e que buscamos de modo controverso. E perdemos tanto tempo... Tanto tempo explicando as coisas que não se necessita explicar. Mas hoje tudo pede explicações, relatórios, processos e ofícios e mais alguns memorandos, a vida pessoal se confunde com o trabalho e quando percebemos já não sabemos que lugar ocupamos na hora do almoço. Complicamos mais ainda o humano já complicado... E não percebemos o adoecimento que é latente!

O carinho do Cauã, que não durou mais do que alguns segundos, representa aquilo que nós perdemos com o desenvolvimento e com a aquisição das responsabilidades, o essencial. Penso que esse é o essencial que não mais enxergamos, não porque não queremos ver, mas porque já estamos cegos. Fomos lobotomizados e estamos cegos nos sentimentos, pela necessidade de termos assumirmos armaduras, pois nos lograram dizendo que deveríamos ser fortes sempre, nos trancafiamos e deixamos as chaves enferrujarem... Colocamos o essencial num lugar sagrado, e como fugimos do sagrado e de certo modo o repudiamos, por ser muito simplista para nós seres complexos, nos perdemos ainda mais em meio a nossa confusa natureza.

Depois que me reclinou sua cabeça, o Cauã caminhou para a sala... Nada disse, porque ainda não fala, nem tampouco olhou para trás para avaliar minha expressão facial. Ele simplesmente andou do seu jeito novo de andar e foi apreendendo o mundo... Eu sei que um dia, ele irá perder um pouco dessa essencialidade, pois o rito dos homens é extorquir nossa essência verdadeira infantil, para nos programar e assim novos simulacros existirem. Porém, enquanto ele não se contamina, aprendo com ele esses detalhes que um dia também possui, e dessa forma breve e diminuta posso experimentar novas perspectivas - um sonhar acordado quem sabe, em meio ao pesadelo real da vida adulta e chata que vivemos.




domingo, 6 de maio de 2012

Felicidade Parasitária




Comumente ouvimos desabafos de pessoas acerca da tal famigerada infelicidade. Hoje tão comum e corriqueira, que já há quem veja a felicidade como uma utopia – algo pueril que encontra significado apenas no terreno do passado. Imaginar a felicidade em tal perspectiva é preocupante, pois nos coloca em uma situação cômoda de consternação, que para nada serve.
Lembro que alguns dias atrás, em conversa com professores, um deles se viu preocupado com a questão de algumas gravações realizadas em sala, que muitas vezes têm por objetivo prejudicar o professor. Quando na possibilidade de se editar o material a bel-prazer do discente. E ele comentou sobre um argumento que costuma utilizar regularmente, onde explica que a durante a gestação a criança nada mais é que um parasita, lógico que pela questão de ser um corpo estranho e por ser hóspede em outro organismo. Claro, isso é no âmbito biológico que serve como explicação didática, nada mais – porém, é compreensível o susto ou pavor de uma gestante ao se deparar com tal verbalização, pela simbologia que é coerente com o momento vivido. É uma questão de contexto, e acredito que compreender a felicidade pede a mesma lógica.
Pela fatalidade da modernidade que concebe a infelicidade como sendo um dos sintomas da nossa recorrente crise existencial coletiva, compramos a idéia! Mas e se considerarmos que essa felicidade fugaz como sendo algo artificial? Acredito que a felicidade hoje discutida tem natureza abreviada pelo simples fato de não estar em nós, todavia que comumente observamos uma felicidade cultivada além eu, como que em um padrão parasitário. Hoje nos acostumamos a sonhar os sonhos dos outros e como inquilinos, esquecemos que certos relacionamentos, não duraram mais que uma boa temporada.

 Ao consideramos a felicidade como resultante de um esforço individual e introspectivo, poderíamos de fato, encontrar uma felicidade real, não perfeita, pois a perfeição nada mais é que a própria felicidade utópica... Algo que foi criado como um subterfúgio no campo dos relacionamentos. E tal tarefa é complicada, pela própria dinâmica parasitária, não percebemos o hospedeiro, só podemos desconfiar de sua existência quando na análise de sintomas e comportamentos, logo, cabe a você se questionar a natureza do seu relacionamento, se real ou parasitária, nunca se sabe. O que é certo é que tudo aquilo que cultivamos no terreno dos outros jamais será nosso por direito.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Tapa na cara – os percalços de new educação.


No final de 2011 a lei da palmada foi aprovada com unanimidade na Câmara dos Deputados. Uma lei que busca extinguir as punições de natureza física do cotidiano dos pais e filhos brasileiros. Há quem veja com bons olhos, afinal estamos nos humanizando, outros, porém encontram brechas para um perigo sem precedentes.
Um dia desses estava conversando com minha mãe, sobre os novos modelos de se educar – essa high technology que busca ensinar a educação. E quando nos debruçamos sobre esses artifícios pedagógicos, se constata a perversidade que é. Para quem busca de fato uma educação, o caminho é feito de pedras. O que chamo de nova educação é a modalidade aplicada em nossos colégios, que busca preparar os alunos para um mercado de trabalho, e para as tão concorridas universidades públicas. E assim queremos crianças mais inteligentes, mais inteligentes e com retoques torpes de uma educação que é falha. Tudo bem! Não é culpa do colégio, afinal educação vem de casa, já diz o ditado, então piorou... Pois os pais parecem não compreender o real significado de repreensão e encontramos um campo fértil para as moléstias sociais. Quantas e quantas crianças com Transtorno de Conduta? E com Transtorno de Oposição e Desafio? Inúmeras, e o pior é que achamos que é uma birra transitória ou um mimo que não faz mal a ninguém, mas se hoje encontramos tantos adolescentes cometendo crimes e até mesmo matando pessoas é porque perdemos o controle em dado momento.
Que bom seria se educação e inteligência caminhassem juntas, mas infelizmente não é assim que acontece. Quantas crianças bem intencionadas repetem o ano inúmeras vezes e incontáveis crianças consideradas “problemáticas” avançam nas séries seguintes sem limites? O cenário educacional é feito de falhas, porque o sistema do Estado faliu. A família perdeu a essência e a igreja se tornou banal. E o que temos a partir dessas falhas? Temos um Estado impotente, jovens transgressores e uma lei que não reconhece o adolescente infrator como de fato este é. O ECA contempla um jovem das antigas, o batedor de carteira, o “cheira-cola”... Mas como aplicar um ECA em jovens com 10 mortes na ficha criminal? Como aplicar um ECA em adolescentes que são donos de bocas de fumo? É uma questão de lei.
E para somar a esses fatores sociais indesejáveis, nos cai dos céus uma lei que é boa, afinal que bom seria não dar uma palmada no filho, mas convenhamos – se o sistema é falho e se as demais estruturas sociais apresentam rupturas, como imaginar que essa lei será adequada? Não é! Por que não aumentam as verbas da educação? Por que não criam sistemas que de fato permitam uma educação eficaz? E como punirão os pais que derem palmadas em seus filhos? Tirarão-lhes as bolsas família? Vergonha. Criamos leis virtuais e insípidas que marginalizam pais desesperados e do outro lado vemos os governantes que nos roubam milhões saírem ilesos. O que nos falta são leis e programas que capacitem o povo e não diretrizes pseudopedagógicas que tentam suplantar a autoridade dos pais sobre seus filhos.
E assim continuamos prisioneiros de nossas velhas vaidades. Crianças morrem por fome e por drogas e nós criamos leis “boazinhas” para demonstrarmos números para estrangeiros nos admirarem. Mas o Brasil de fato é outro, é os pais onde jovens estão se perdendo por culpa de pais despreparados e por conveniência de um Estado inerte que aplica leis aparentemente inócuas, mas que cedo ou tarde nos causam mais chagas sociais.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Dos mesmos ciclos



O problema dos finais é que eles sempre se repetem na ritualísitica, penso que se buscasse na postagem do ano passado, encontraria similaridades  desse texto com o anterior. Esse é o desafio de quem ousa escrever sobre o cotidiano – saber se repetir sem o fazê-lo perceptível, reinventar em cim do banal e do trivial. muito Complicado!
Acredito que pertinente seja fazer uma retrospectiva cuidadosa. Uma retrospectiva  verdadeira. Algo que agregue algo ou coisas, afinal, escrever sem sentindo tem sentido demais para ser charmoso. Esse ano foi um ano de tantas mudanças. Troca de Estado, e ainda sinto saudade das ruas frias de Porto Alegre... Daquele vento minuano que não se pode explicar! Só sentindo nas costelas mesmo. Mas retornar é sempre inexplicável... E tanta coisa mudou para melhor, e as lágrimas dos janeiros tristes há muito secaram. As coisas apertaram, as coisas mudaram e houve aprimoramento. E me asusto até hoje com a realidade de ser professor. Professor universitário, quem diria? E resta a saudade apertada da turma de neuropsicologia e das reuniões e das dúvidas quanto ao nosso campo novo. Saudade da minha família do Sul, dos mais chegados e dos mais distantes.  Viver é conciliar saudade e desapego.
São muitos olhos! Muitos olhos que nos fitam e muitos olhos para encarar... E por trás dos olhos há campos para semear conhecimento – para propiciar a gênese do que nem se podia imaginar. Por fim, comecei o ano em um quarto verde, sim o meu quarto quieto e verde lá no Rubem Berta e hoje espero festejar o Natal nos muitos prováveis bairros que eu puder imaginar.
Hoje compreendo que é verdadeiro o pensamento de que cuidaderemos de nossos pais no futuro, só não sabia que o futuro muitas vezes se confunde com o presente. E gratificante é ajudar os pais que nos cuidaram,  e que um dia preparam nossas primeiras ceias. E como me recordo das primeiras ceias... Das calças de linho e das camisas de seda. Era tanta pompa e tanta alegria, e no chão os pisos ainda por colocar. Hoje em dia, a casa é grande e confortável, mas nos corações, o mesmo espirito parece que perdeu o sentindo – esmoreceu . E penso que isso seja em todas as casas do mundo e em todos os corações dos homens.
O homem se perdeu no próprio tempo que acelerou...  Perdeu o controle das horas, dos dias e dos anos. E assim dormimos em um mês e nos percebemos acordar no mês seguinte, e não bastasse isso,  O ruim é não mais despertar.
E se o tempo corre, corremos nós atrás do acelerado e do perdido. Atrás dos sonhos escondidos, dos amores incompreendidos e do ontem que não mais viveremos... E tudo isso acaba no dezembro natalino... E se chegamos aqui muídos, nos revigoramos milagrosamente no janeiro que começa amanhã, para depois voltarmos ao vício de novamente se deixar perder. Talvez a graça da vida seja esquecer que ela é breve. Penso que o viver genuíno é esse onde nos desligamos das horas que não mais teremos e dos sonhos que tentaremos reaquecer.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

As novas balas perdidas


Com o desenvolvimento das sociedades e o esgotamento das vias urbanas, que se transformaram em redutos de procrastinação, nos deparamos com o vezo do descontentamento e estresse. Sim, só nos resta aprimorar os recursos tecnológicos que atenuem o caos do trânsito nas grandes cidades e então nossos carros ou se transformam em um espaço zen, pela utilização de músicas instrumentais, ou se torna um cinema improvisado com a ajuda de DVDs diversos.

 Na contramão de tudo isso, observamos o empenho engenhoso das indústrias automobilísticas, que cada vez mais nos surpreendem com seus carros econômicos e velozes. Se por um lado a sociedade nos diz que o espaço é reduzido, por outro viés encontramos carros superpotentes. Carros que outrora significam luxo de muitos poucos, mas que hoje são acessíveis a quem poder pagar mais e hoje se pode isso. A crítica não é a acessibilidade aos carros de luxo, a preocupação resulta nessa desproporcionalidade. Disse-se que não há mais espaços nas vias públicas, por que então criamos carros cada vez mais velozes? Onde se encontra o sentindo disso. Do lado das montadoras a resposta padrão é a aquela que afirma que tais carros foram feitos para estradas e vias rápidas. Porém, nesse polêmico bolo social, ainda temos mais um ingrediente - o álcool. E então tudo se torna muito mais fatal.

Nos últimos anos temos acompanhado um crescimento vertiginoso em mortes no trânsito. Se por um lado as pesquisas apontam que os acidentes diminuíram, por outro observamos que nesse mínimo se constata um aumento dos óbitos no trânsito. Nos últimos meses, observamos carros superpotentes dizimando famílias e tolhendo os sonhos de pais que hoje choram perdas absurdas. Hoje mais uma adolescente de 16 anos atropelou 05 pessoas inocentes. Onde iremos chegar assim? Se outrora a mídia relatava o tal fenômeno das balas perdidas, hoje temos essas novas balas, esses objetos de metal que tem um poder destrutivo imensurável. 

O Brasil ainda fecha os olhos para tudo... Infelizmente a maioria dos crimes no trânsito é considerada culposa e por fim, cabe pagar a bagatela por uma ou duas vidas. A verdade é que somos vulneráveis nesse trânsito absurdo. Temos que dirigir por nós, pelo motoqueiro desafortunado, pelo motorista embriagado e pelos pedestres suicidas. Pra mim tudo isso se resume em falta. Ou nos falta leis mais duras, ou nos falte mais olhos na cara, para sobreviver nesse trânsito perverso




TEXTO: Rockson Pessoa
IMAGEM: http://agenciabrasil.ebc.com.br

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

ENEM eu sabia


Mais uma vez o MEC demonstra sua deficiência com o Exame Nacional do Ensino Médio - ENEM. Não bastasse o fiasco do ano passado, quando inúmeros estudantes foram prejudicados por questões anuladas, por reexames e até pela precariedade do SISU, que fechou portas para inúmeros jovens que não conseguiram desvendar os enigmas de um sistema tão deficiente.

A culpa não é totalmente do MEC, não se pode negar os avanços nesse Ministério a culpa é dos governantes e de nós mesmos que aceitamos passivamente a negligência no ensino brasileiro. Não é a toa que ocupamos os lugares mais baixos na avaliação internacional.

É vergonhoso um País com em ascensão como o nosso ainda se utilizar de políticas alienantes que defendem a existência de semi-analfabetos votantes e que restringe cada vez mais o conhecimento para alguns poucos. Por mais que a Presidente (não é presidenta), fale aos países do primeiro mundo que se pode mais e algumas outras coisas fáceis de dizer e difíceis de aplicar, se mostra muito leviana na medida em que, quando pratica sua tarefa de casa, corta recursos para a educação e marginaliza seus professores.

Mas a culpa como já citei acima, não reside na Dilma e tampouco é culpa do agora diplomado Lula da Silva, isso é resquício da nossa colonização exploradora que parece que nos impregnou a tal ponto que até hoje o conhecimento parece ser algo inalcançável. Quando na verdade, o aprender é algo do ser humano...

Canso de ver isso semanalmente, quando atendo crianças que sadias me surpreendem ao não saber ler e escrever. Crianças com 08 anos, que se mostram analfabetas. Isso é puro descaso. E para piorar, quando nos deparamos com os alunos universitários, não menos freqüente, encontrar semi-analfabetas, analfabetos funcionais e mais uma gama de sujeitos que nem sabemos categorizar.

E o triste é perceber que o cenário só tende a piorar, como sempre, as coisas sempre caminham nesse sentido. Precisamos de medidas maduras, precisamos de um real valor da educação. Infelizmente o problema da educação é clichê! Algo que já até se tornou banal... E o pior, quando discutimos isso, é vistos como pessoas rasas e sem idéias, pois o discurso do problema educacional se tornou um fator do senso comum.

Situações como a do ENEM só mostram o deficitário sistema de educação no Brasil. Quando observamos o norte nos entristecemos mais ainda... E no nordeste encontramos algumas disparidades também. E tudo isso só gera preconceito, e então ouvimos que os nordestinos são burros e os nortistas são índios ignorantes. Onde está escrito isso? Historicamente observamos uma educação que privilegiou poucos em detrimento de muitos.

O Brasil tem de programar leis mais sérias e coerentes. Objetivar métodos que avaliem de maneira justa nossos jovens. São tantas cobranças e tantos sonhos e quando nos deparamos com entraves na própria seleção, isso é mobilizante. O Brasil tem que aprender a lidar com o problema educacional de maneira real, de que adianta promover alunos incapacitados para séries mais elevadas, criando a espécie de um funil, e permitir de maneira perversa que o mesmo jovem antes privilegiado por um sistema facilitador se veja incapaz de entrar em uma universidade? Cotas e cotas não irão resolver o problema educacional, da mesma forma que bolsas família não irão sanar as diferenças sociais no Brasil

E assim vamos tentando acreditar que as coisas melhorem. Que as crianças tenham mais oportunidades de ensino qualificado e que os professores possam de fato, serem reconhecidos pelo o nobre papel social que cumprem.


TEXTO: Rockson Pessoa